sexta-feira, 14 de abril de 2017




Por especial deferência da actual proprietária, D.ª Maria Amélia Lourenço,
tive acesso ao original de uma carta de brasão de armas que aqui reproduzo para quem gosta de saber destas coisas.

Carta de Brazão de Armas de Nobreza e Fidalguia
Concedida por D. Maria I ao Bacharel João Ferreira de Frias e Gouvea, do lugar do Barril, do termo de Mortágua.  
Lisboa, 3 de Junho de 1792



 
D. Maria

 Por Graça de Deos Raynha de Portugal, e dos Algarves, e da quem e da alem, Mar em Africa, Senhora da Guiné e da Conquista Navegação do Commercio da Ethiopia, Arabia, Persia, e da India. &. Faço saber a os que a esta Minha Carta de Brazão de Armas de Nobreza, e Fidalguia virem que o Bacharel João Ferreira de Frias e Gouvea, do lugar do Barril, Termo de Mortagoa, Comarca de Vizeu e Capitão Mor do mesmo termo, me fez petição dizendo, que pella sentença de justificação da sua Nobreza a ella junta proferida, e asignada pelo Meu Dezembargador Corregedor do Civel da Corte, e Casa da Suplicação o Doutor Joaquim Xavier Moratto Boroa, sobscripta por João Caldeira do Crato Castelbranco Escrivão do mesmo juízo, se mostrava que elle he Filho Legítimo do Bacharel Manoel Ferreira de Frias, Capitão Mor que foi do dito Termo, e de Paula Maria de São Pedro e Gouvea. Neto pela pella parte Paterna de Manoel de Manoel Ferreira, e de Anna Ferreira de Frias. Neto pella parte Materna de João Vaz Monteiro, e de Theodora de Gouvea. Os quais seus Pays e Avós que forão pessoas muito Nobres das famílias dos apelidos de Frias e Gouveas, que neste Reyno são Fidalgos de Linhagem Cotta de Armas, e de Sollar conhecido, e como Taes se tratarão com Cavallos, Creados, e toda a mais ostentação própria da Nobreza, servindo no Melitar os Postos de Governo nas suas terras honde viverão, sem que em tempo algum cometesem crime de Lesa Magestade Devina ou Humana pelo que me pedia elle mesmo suplicando por Merce, que para a memoria de seus Progenitores se não perder, e clareza de sua antiga Nobreza lhe mandasse dar Minha Carta de Brazão de Armas das ditas famílias, para dellas também usar na forma que as houveram, e forão concedidas a os ditos seus Progenitores. E vista por Mim a dita sua petição, e sentença, e constar de tudo o referido, e que a elle como descendente das mencionadas famílias lhe pertence uzar, e gosar de suas Armas segundo o meu Regimento, e Ordenações da Armaria lhe mandei passar esta Minha Carta de Brazão dellas – na forma que aqui vão Brazonadas, Devizadas, e Illuminadas com Cores e Metaes, segundo se acham Registadas no Livro dos Registos das Armas da Nobreza, e Fidalguia destes Meus Reynos que tem Portugal Meu Principal Rey de Armas. A saber. Hum Escudo partido em palla. Na primeira as Armas dos Frias que são em campo de prata hua torre de azul acompanhada de dous Leões de vermelho, postos em pe, virados para ella, o pe da torre ondado de azul e prata. Orla vermelha carregada de outo aspas de ouro. Na segunda palla as dos Gouveas, que são partidas em palla, na primeira em campo vermelho seis bejantes de prata entre hua Cruz dobre e bordadura de ouro, e na segunda em campo de prata seis arruelas de azul em duas pallas. Elmo de prata aberto, guarnecido de ouro. Paquise dos Metaes e Cores das Armas. Timbre dos Frias que he a Torre do Escudo, e por diferença hua~ brica azul com hu~ farpão de ouro. O qual Escudo de Armas poderá trazer e usar tão somente o dito Bacharel João Ferreira de Frias e Gouvea, assim como as houverão e uzarão os ditos Nobres, e antigos Fidalgos seus Antepassados em tempo dos Senhores Reys Meus Antecessores, e com ellas poderá entrar em Batalhas, Campos Reptos, Escaramuças e exercitar todos os mais actos lícitos da Guerra e da Pax. E assim mesmo as poderá trazer em seus Firmais, Aneis, Senetes, e Devisas, pollas em suas Cazas, Capellas, e mais Edificios, e deixallas sobre sua própria Sepultura, e finalmente se poderá servir, honrar, gozar, aproveitar dellas em todo, e por todo como a sua Nobreza convem. Com o que Quero, e me Práz q’haja elle todas as Honras, Privilégios, Liberdades, Graças, Mercês, Izençois, e Franquezas, que hão , e devem haver os Fidalgos, e Nobres de Antiga Linhagem, e como sempre de todo uzarão, e gozarão os ditos seus Antepassados: pelo que Mando a os Meus Dezembargadores, Corregedores, Provedores, Ouvidores, Juizes, e mais Justiças de Meus Reynos, e em especial a os Meus Reys de Armas, Arautos e Passavantes, e a quais quer outros oficiais, e pessoas, a quem esta Minha Carta for mostrada, e o conhecimento della pertencer, que em tudo lha cumprão e guardem. E fação inteiramente cumprir, e guardar como nella se contem, sem duvida nem embargo algum que em ella lhe seja posto por q~ assim he Minha Mercê. A Raynha Nossa Senhora o mandou por Joaquim Pereira Carosso Escudeiro Cavalleiro de sua Caza Real, e seu Rey de Armas Portugal, Bernardo Joze Agostinho de Campos Escrivão da Nobreza destes Reynos, e suas Conquistas, a fes em Lisboa a os tres dias do Mez de Junho do Anno do Nascimento de Nosso Senhor JESUS Christo de Mil sete centos noventa e dous: E eu Bernardino Joze Agostinho de Campos, a fis e sobscrevy

Portugal Rey de Armas Principal
Joaq.m P.a Carosso

Reg.da no Lº 4º dos Brazoens de Armas de Nobreza e Fidalguia destes Rnos e suas Conq.tas A F 252

Lisboa 2 de Junho de 1792
Bern.do Joze Agost.º de Campos







Pintura existente no tecto da sala de jantar da Casa Senhorial de Vale de Açores

Transcrevemos também uma referência num livro de Genealogia:
1143. JOAO FERREIRA DE FRÍAS E GOUVEA (Bacharel), do logar do Barril, termo de Mortagoa, comarca de Viseu, e capitão-mór do mesmo termo ; filho do bacharel Manuel Ferreira de Frias, capitão-mór do dito termo, e de D. Paula Maria de S. Pedro e Gouvea; neto pela parte paterna de Manuel Ferreira, e de D. Anna Ferreira de Frias, e pela materna de João Vaz Monteiro, e de D. Theodora de Gouvea.
Um escudo partido em pala; na primeira as armas dos Frias, e na segunda as dos Gouveas. — Br. p. a 3 de junho de 1792. Reg. no Cart. da N., liv. IV, fl. 252. (C. C.)

BAENA, VISCONDE DE SANCHES DE : ARCHIVO HERALDICO
GENEALOGICO;TYPOGRAPHIA UNIVERSAL, LlSBOA 1872

quarta-feira, 5 de abril de 2017


As comemorações do dia 24 de Abril

Tenho vindo a constatar que a o executivo da Câmara de Mortágua não perde uma oportunidade de homenagear figuras ligadas ao antigo regime. Foi o Dr. Assis, que como sabemos era um monárquico salazarista assumido, mas isso foi sempre omitido nas informações dadas oficialmente.

Na última Agenda Municipal, a propósito dos 78 mortaguenses participantes na 1ª guerra mundial, só indica o nome de quatro, e mesmo assim deturpando o de um deles.  No entanto destaca dois personagens que não nasceram em Mortágua, embora sejam filhos de um mortaguense. Mas têm uma característica interessante: são monárquicos salazaristas, e um deles foi mesmo ministro de Salazar. Dele disse e escreveu o Dr. Assis: “ e não podemos deixar de orgulhar-nos de que o Senhor Ministro do Interior … seja um filho deste concelho – o mais ilustre de todos quantos aqui nasceram, depois de D. Vasco Martins, de Vila Nova, alto funcionário da côrte de D. Sancho I, que promoveu a fundação do sete vezes secular município de Mortágua.” Acontece que nem D. Vasco Martins nasceu em Vila Nova, nem o senhor ministro nasceu em Mortágua, mas sim em Arcos de Anadia.

Talvez para contrabalançar assistem-se a homenagens a Tomás da Fonseca, uma figura ilustre e um lutador pela liberdade e por Mortágua. Mas é dramático ver como se amputa parte da sua memória e se inventam coisas que nunca aconteceram. Por um lado ocultam que Tomás da Fonseca foi membro do PCP nos últimos 20 anos da sua vida. Em contrapartida inventam que esteve preso em Caxias e no Tarrafal, o que é absolutamente falso. O único mortaguense que esteve preso em Caxias e no Tarrafal foi o Dr. Basílio Lopes Pereira. Outros estiveram presos em Caxias, nomeadamente a sobrinha de Tomás da Fonseca, Fernanda Paiva Tomás, que foi a mulher portuguesa que esteve mais tempo aprisionada por motivos políticos – mais de 9 anos – mas dessa não interessa falar…

E teremos este ano, mais uma vez, as comemorações do 24 de Abril, porque nem as explosões do fogo de artifício acontecem a 25 de Abril. Mas em contrapartida temos na Agenda Municipal um texto poético, de gosto duvidoso, da autoria do nosso Presidente. É pena ser lido no dia 24… mas ele gosta assim.

quarta-feira, 15 de março de 2017


O Barão da Folgosa


Um mortaguense desconhecido dos seus conterrâneos

Jerónimo d’Almeida Brandão Sousa nasceu em Mortágua a 30 de Setembro de 1801.
Era neto de Maria Teresa da Silva e de João de Sousa Brandão, natural do Freixo, e Monteiro-mor de Mortágua.
O seu pai era Francisco d’Almeida Brandão e Sousa, natural de Mortágua,  que ocupou o lugar de Monteiro-mor de Mortágua, vago por falecimento de João de S. Brandão. Foi depois comerciante na cidade de Lisboa.  Morreu em 1831, na cadeia do Limoeiro, vítima de maus tratos a que  foi sujeito, por ser aderente da Carta Constitucional de 1826, e defensor da causa liberal e dos direitos de D. Pedro IV e D. Maria II.

Jerónimo Brandão de Sousa seguiu a vida comercial e tornou-se abastado proprietário e capitalista. Casou com Maria Joaquina Rocha de Castro, filha de José Joaquim de Castro, também negociante e proprietário em Lisboa.
Desempenhou vários cargos importantes tais como, Tesoureiro da Alfandega das Sete Casas e Recebedor da Mesa dos Vinhos da Alfandega.
 Serviu como Coronel do Regimento de Artilheria Nacional de Lisboa e após a sua extinção, foi nomeado primeiro Comandante do novo Regimento de Artilheria da Carta. 1
Fez parte do Conselho da Rainha D. Maria II, e foi Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
Por Alvará de 30 de Dezembro de 1840, foi nomeado Fidalgo Cavaleiro da Casa Real.
Após a extinção das Ordens Religiosas em 1834, a Quinta da Folgosa, na margem esquerda do rio Douro, pertença do Mosteiro de Salzedas desde o século XIII, foi arrematada em hasta pública a 6 de Novembro de 1841, por Jerónimo d’Almeida Brandão Sousa.
Em 1843 foi-lhe concedido o título de 1º Barão da Folgosa, em sua vida.2
Em  Janeiro de 1846, foi nomeado pela Rainha D. Maria II para integrar uma comissão para desencadear uma subscrição nacional de apoio às vítimas das chuvas na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. 3
O  monumento fúnebre de homenagem ao poeta Filinto Elísio, que se encontra no cemitério parisiense de Père Lachaise, foi em grande parte financiado por Jerónimo Brandão Sousa.

Não faltaram também alguns detractores do Barão.
No catálogo de um alfarrabista do Porto 4 encontramos a transcrição de uma carta anónima ao redactor do jornal Estandarte que acusa  o Barão de grande crueldade com a sua esposa.
Foi deputado parlamentar, mas é referido como um político que punha os seus interesses pessoais acima de quaisquer convicções 5 , embora as afirmações partam de alguém que é, seguramente, um seu opositor.

Morreu em Lisboa  a 10 de Julho de 1848.

 

1 SILVA, Desembargador Antonio Delgado da : Collecção Official da Legislação Portuguesa. Anno de 1846. Imprensa Nacional. Lisboa 1846

Convindo nas circumstancias actuaes, crear um Regimento de Artilharia de Voluntarios, com o fim de equilibrar a força que estes Corpos apresenta, e tirar da mesma todo o partido: Hei por bem Determinar, que immediatamente se reorganize o Regimento de Artilheria de posição de Voluntarios Nacionaes, sobre o Plano que com este baixa, assignado pelo Marechal do Exercito, Marquez de Saldanha, Presidente do Conselho, Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios da Guerra; o qual se denominará - Regimento de Artilheria da Carta=; e Nomear para Coronel Commandante do mesmo, o Coronel que foi do extincto Regimento de Artilheria Nacional, Barão da Folgosa.

O mesmo Marechal do Exercito, Marquez de Saldanha, Presidente do Conselho, Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios da Guerra o tenha assim entendido, e faça executar. Paço das Necessidades, em vinte e um de Outubro de mil oitocentos quarenta e seis. = RAINHA. = Marquez de Saldanha.”

2  Decret, de 8, e Carta de 10 de Novembro de 1843. —(D. Maria II — Regist. no Arch. Nac. da T. da T. - Mercês  da Rainha D. Maria II. Livro 22 a fl. 121 v

3 ASSOCIACÃO MARITIMA E COLONIAL :ANNAES MÁRITIMOS  E COLONIAES, QUINTA SERIE, PARTE OFFICIAL  IMPRENSA NACIONAL. LISBOA 1845.

SECÇÃO DO ULTRAMAR.

Constando por Officio do Governador Geral da Provincia de Cabo Verde, de 11 de Novembro ultimo, que a excessiva abundancia de chuvas que cahiram na Ilha de Santo Antão nos primeiros dias do mez de Outubro, produzira uma alluvião que causou terriveis estragos, deixando os habitantes daquella Ilha reduzidos á fome suas habitações em grande parte destruidas e até muitas inteiramente estragadas : Sua Magestade a Rainha, desejar por todos os meios com os soccorros opportunos ás infelizes victimas daquella calamidade, É servida determinar, pela Secretaria d'Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar, que uma Commissão composta do Barão de Lazarim, Major General d'Armada , do Brigadeiro Francisco de Paula Bastos, Membro da Camara dos Deputados, do Barão da Folgosa. do Major Joaquim Bento Pereira, Membro da Camara dos Deputados, e do Negociante da Praça de Lisboa, João Gomes da Costa , os quaes de entre si escolherão Presidente e Thesoureiro, trate de promover pelos meios que julgar mais profícuos uma subscripção nas differentes terras do Reino, cujo producto seja applicado ao soccorro daquelles infelizes habitantes ; confiando Sua Magestade das qualidades de todos os nomeados, que se haverão esta incumbencia por modo que inteiramente corresponderá aos desejos do Seu maternal coração. Paço em Belem em 17 de Janeiro de 1846. = Joaquim José Falcão.”

4Catálogo de : Livraria Manuel Ferreira Lda Alfarrabista. Porto

«CARTA ANÓNIMA não datada, dirigida ao “Snr Redactor” do Estandarte, José Bernardo da Silva Cabral. Dim. 21,5 x 27 cm.
Carta anónima manuscrita sobre papel com timbre “Abelheira-Porto”, onde a autora denuncia os maus tratos a que Maria Joaquina da Rocha e Castro, Baroneza da Folgosa se sujeitava de seu marido Jerónimo de Almeida Brandão e Sousa, primeiro e único barão da Folgosa, rico comerciante e capitalista natural de Mortágua, com propriedades em Lisboa, entre as quais o Palácio da Ega e no Douro…

“Nas - noticias diversas - do “Estandarte”, que V. - tão dignamente dirige, publicou-se que a B. da Folgoza sahira da Companhia do seu marido, para se esquivar aos máus tratos, que este lhe dava. (...) Mas o credito da respeitavel Senhora nem por isso ficou a coberto da critica, da abelhudice, e da maledicencia. (...) Á mais de um ano, que a B. da F. se retirou da sua caza para a da sua infeliz filha cazada, conservando-se alli depois do infausto fallecimento d’esta (...) em quanto não pôde recolher-se, como fez ultimamente, a um convento. As razões circunstanciadas d’isto não é necessario pôl-as aqui a publico; (...) Basta dizer que quando a minha amiga tomou a rezolução de se accolher ao amparo da sua boa filha, já a muito, que encerrada no seu quarto só comia os sobejos da meza das criadas da Caza! É que nem coagido pela justiça das Leis seu marido lhe mandou ainda dar os alimentos, que lhe pertencem pelos mais sagrados deveres (...)”, terminando a autora por pedir ao Redactor do Estandarte a publicação desta carta para a “defeza d’uma Senhora, que a sorte fez desditoza (...)”.»

5 D'ARGA, Eremita da Serra (atribuído a D. João de Avevedo): QUADRO POLITICO, HISTORICO E BIOGRAPHICO DO PARLAMENTO  DE 1842; Tipographia de Manoel J. Coelho, Lisboa 1945  

e barão da Folgosa, o agiota (Perryer como nós lhe ouvimos chamar!) saltava de cá para lá com a agilidade d'um saltimbanco. Se lhe perguntavam o porque, Rodrigo é quem se encarregava de responder: — deixa-lo, dizia elle, que bem avisado anda no como procede. Pouco importa que vote com o governo, porque sempre que convier será nosso.
Esta asserção era exacta; mas no que apenas havia erro era na supressão d'um artigo. Quem, não disse, lhe convier, não tinha dito cousa nenhuma.
Essa occasião não chegou, e por isso Folgosa, parlamentarmente fallando, morreu no posto em que o deixaram as ultimas transações d'agiotagem. “ Pg.17
“Apoz o debate dos discricionarios veio o do decreto do 1.º d'Agosto, e ahi estiveram os ares mais turvos.
Receoso de defecção por surpreza, o governo chamou tudo a seus postos, e quem não appareceu levou nota. Folgosa, foi um dos que não quiz votar, e ignoramos se d’ahi lhe veio, ou de o supporem affecto a Rodrigo, não ser depois reeleito.” Pg. 23 

 



Quinta da Folgosa ou Quinta dos Frades

Fotografia antiga copiada de Jornal dos vinhos.com

sábado, 14 de janeiro de 2017


 A Senhora do Chão de Calvos e as Invasões Francesas, ou, mais um erro histórico do Dr. Assis Santos

       Já noutras publicações dei conta de afirmações escritas pelo Dr. José de Andrade Assis e Santos que não correspondem à verdade. Hoje vou escrever sobre a Senhora do Chão de Calvos e o que sobre ela diz.
       Num artigo publicado na revista “Beira Alta” 1, em 1944, diz Assis e Santos:   

 “ Conta-se que os franceses respeitaram a imagem de Santo Amaro, na Aveleira, sob o pretexto de que era um santo de nacionalidade francesa.
    Mas não foi essa a atitude habitual dos franceses, na sua generalidade impregnados de impiedade revolucionária. Alguns sacerdotes foram desacatados- cita-se o exemplo dum padre de Santa Cristina que teve de marchar na frente de um destacamento francês ajoujado debaixo dum pipo de vinho…
     Aqui como em outras partes do país, foi necessário retirar dos templos as imagens e todos os objectos do culto mais preciosos, para salvá-los da rapacidade sacrílega dos soldados e oficiais franceses. Algumas dessas imagens se perderam, por morte de quem as escondeu em algures solitários. O achado de uma dessas imagens, pertencente à igreja do Sobral, que a devoção dum paroquiano pôs a salvo no Chão de Calvos, foi origem de uma lenda local que inspirou a construção dum novo templo.
     A capela de Nossa Senhora de Chão de Calvos, objecto duma romaria de fama, é o símbolo perdurável dos desacatos que os altares houveram de sofrer da parte da soldadesca e da oficialidade francesa, extraída da escória da Revolução de 1796. “

     A história parece lógica, mas não é verdadeira. Quase cem anos antes das Invasões Francesas, em 1712, já Frei Agostinho de Santa Maria no seu livro “Santuario Mariano e Historia das Imagens milagrosas  de Nossa Senhora…” 2, nos  dá conta do aparecimento da imagem, do santuário construído em sua honra, e dos milagres que já operara.

Vale a pena ler na íntegra, e com a saborosa linguagem da época, a descrição de Frei Agostinho

  TITULO LXXVIII.
Da  Imagem de N. Senhora de Chão de Calvo , ou Chão de Calvos, no termo da Villa de Mortagua.

No termo da Villa de Mortagua ha huma Freguesia, ou lugar chamado Palla, que distará huma legoa da Villa para a parte do Occidente. Nesta Freguesia ha hum valle, que ainda que he solitário, he fresco, & abundante de arvoredos frutíferos, & silvestres, regados de duas fontes, & com quantidade de oliveyras. Aqui neste destrito guardava a Divina Providencia hum celestial tesouro, & tão grande, que com elle se enriqueceu a terra toda; & nesta occasião em que hum venturoso camponez o descubrio, fez com elle ricos a todos aquelles contornos. Porque neste ameno, e fresco valle descubrio aquella celeste Arvore, que produzio aquelle esplendido , & fermoso fruto de onde se sustentão todos os fieis, como a acclamão os Gregos no seu Hymno:  Arbor fructum ferens splendidum, unde fidelis alluntur. Este dito camponez, de quem já não lembra o nome, mas consta sim , que era calvo ( & creio que nunca este se ofenderia de lho chamarem, como lá se sentio o Profeta Eliseo ao entrar das portas da Cidade de Bethel, quando os rapazes zombando delle lhe disseram por mofa, & escarneo: Ascende calve, ascende calve; aos quais os usios despedaçárão em castigo da sua zombaria) pois por esta que os homens julgão imperfeição no humano composto, mereceu ser elle conhecido. Porque com este defeyto, que o não he, se deu à Raínha dos Anjos o título, & a invocação, invocando-se nossa Senhora do Chão do Calvo, aludindo ao inventor, que a descubrio em seu campo.
Refere-se por tradição, (que a incúria dos homens, & o seu descuydo nos faz agora referir por tradiçoens, & conjecturas, aquellas maravilhas, & prodígios que mereciam toda a lembrança, & firmeza das escrituras) que andando hum homem naquelle valle, encontrara a sua boa sorte a dita de descubrir no coração de hum antigo castanheiro ( porque havia muitos por aquelle sítio naqueles tempos; & era este homem morador na Freguesia do Sobral, que fica mística com a de Palla) uma imagem da Soberana Raínha dos Anjos. Deu o venturoso homem conta da sua dita aos moradores do lugar de Palla , & também aos do seu lugar; que o gosto da sua dita o fazia manifestalla a todos. Os de Palla lhe quizerão alli logo edificar uma Ermida, mas os do Sobral invejosos, & por entenderem que a eles lhes pertencia o tesouro; porque o seu patrício o havia descuberto no seu chão; se introduzirão na posse, & levaram a Imagem da Senhora para o seu lugar, & assim com effeyto a collocarão na sua Parochia.
Satisfeytos, & alegres os moradores do Sobral, por se considerarem de posse daquela preciosa joya, pela manhãa se virão muy tristes, & desconsolados, por se acharem despojados della. Feytas as diligencias, se soube, que a Senhora estava no seu antigo lugar, & no mesmo cavernoso nicho do seu castanheyro, de onde a levarão segunda vez para a Parochia; & isto dizem succedera varias vezes. E porque entenderão os do Sobral, que os de Palla lhe havião feyto o furto, guardarão toda a noyte armados a Santíssima Imagem, para a defenderem , se sucedesse que os de Palla voltassem para lha furtarem, como eles imaginavam o havião feito na antecedente noyte. Mas como pela manhãa a não acharão, vieram a entender, que os Anjos havião sido, os que lhe haviam feyto o furto, & os havião despojado da sua joya, & que a Senhora não queria deyxar os moradores de Palla, em cujo destrito  se havia manifestado; & assim desistirão nas diligencias, & consentiram, que os de Palla lhe edifassem Casa, pois a eles pertencia o tesouro descuberto na sua terra, & no seu destrito; os quais logo com effeyto o fezerão no mesmo sítio, em que a Senhora se manifestou. Foi esta manifestação feyta há tantos anos, que já não lembra o tempo, nem o nome do ditoso homem. Porém dizem, que pelo que ouvirão a seus pais, & avós, se entendia , que a Senhora se manifestára havia mais de trezentos annos. E como não podemos chegar a este Santuario, tambem não pudemos inquirir se havia alguma inscripção, que declarasse os seus princípios, ou livros da Irmandade, de que se pudesse alcançar alguma cousa a este intento.
Obrigados os moradores do lugar de Palla do favor, que a Senhora lhes fizera em os preferir  a todos os mais, lhe erigirão huma devota Irmandade, que a serve ainda ao presente com fervorosa devoção, & lhe solemniza a sua festividade. Instituirão estes Irmãos hum bodo, movidos da pobreza, & falta de frutos que então se experimentava. Para o que concorrerião os devotos das Freguesias circumvizinhas  com as suas esmolas, & no terceiro Domingo de Outubro se ajuravão naquelle valle mais de duas, ou três mil pessoas, & a todos se repartia com abundancia, assim de comer, como de beber, às horas do jantar. Era o Juiz, & os Mordomos, ( que para esta função erão eleitos)os que repartião o comer. Vinha em primeyro lugar o Parocho no Domingo pela manhãa, com sobrepeliz, & estola a benzer o pão, que ali tinhão junto, o qual cobrião com toalhas depois de bento; e passado algum espaço de tempo descobrindo-se outra vez achavão, que Deus o tinha multiplicado em outra tanta quantidade. O mesmo se experimentava nas pipas de vinho, que ali tinhão trazido, para dar de beber aos convidados , ou àquella grande multidão que havia concorrido; porque  quando já nellas parecia não havia nada, tapado o botoque por algum espaço de tempo, corria outra vez novamente. Neste Domingo he que se faz a festividade da Senhora, e bem poderá ser, que nesse dia fosse a sua manifestação.

Esta devoção, que a alguns pareceria rustica, & escusada, mostrou a Senhora ser muito do seu agrado, pois se fazia em seu obsequio, & por seu louvor, por quanto em huma ocasião entrando um grande çapo em hum daqueles grandes azados, em que se cozia a carne, sem se advertir no que nelle estava, se encheu della, e depois de cozida repartindo-se, & juntamente o caldo, se achou no fim o çapo inteyro, sem que a algum dos muytos, que do tal azado comerão, fizesse o menor damno. Com este , & outros muytos prodígios, que se experimentavam cada dia entendiam todos, que a Senhora se agradava daquele obsequio, que lhe faziam cõ o bodo. Muytas vezes se experimentou, que o pão que ficava era tão milagroso, que dando-o a quem estava doente de cezoens, imediatamente livrava dellas. Lançado nos celeyros os preservava do bicho, que lhe consumia o grão, que tinham; & ainda o mesmo pão , affirmão, se conservava incorrupto.

Este bodo se acabou, & em seu lugar substituhio huma feyra, que se faz no mesmo Domingo terceyro de Outubro, a qual dura até o presente, aonde concorre  huma grande multidão de gente, & nesta ocasião concorrem  também os devotos da Senhora a satisfazer os seus votos, que lhe fizeram, & a pagar as suas ofertas, que lhe prometerão. E se vê que mais gente vem  a esta diligencia, do que a comprar o que na feyra se vende. A festa deste dia se faz com grande solemnidade; tem Missa cantada de órgão, Sermão, & de tarde procissão, em que tiram a Senhora. Tem este Santuario outros vários concursos de gente, & romagens, em que vem a festejar, & a louvar aquella Senhora. Eles se vem no primeyro Sabbado da Quaresma: o segundo concurso he no Sabbado de Lazaro; & o terceyro na segunda Oytava da Paschoa da Ressurreyção. Além destes dias he sempre continua, & frequente a romagem de devotos em todo o anno; porque todos se desejão valer dos grandes favores, que esta Senhora reparte.

He tão grande, & tão affectuosa a devoção dos Irmãos, que servem à Senhora na sua Irmandade, que andam com muyto desvelo, & cuydado, só a fim de lograrem verdadeyramente o titulo de Irmãos da Senhora, & de militarem debayxo da bandeyra de huma tão singular Protectora. São estes em numero oytenta & oyto seculares, cujas divisas são vestes brancas, e murças azuis, & doze sacerdotes.

Está colocada esta Santíssima Imagem no meio do Altar mòr em hum nicho, & não se põem mais adornos, que coroa, & manto, & estes são de varias cores, segundo os tempos , & festividades; & ordinariamente se vem também cobertos de preciosas prendas, com que os seus devotos a prendem, ou com que mostrão o seu agradecimento,  & o muyto que a desejão servir. Tem muyto bons ornamentos, & o Altar se vê adornado de ricos ramos. He de escultura formada em pedra; a sua estatura são dous palmos, & meyo; tem nos braços ao Divino Infante Jesus, a quem está oferecendo seus virginaes peytos, que elle toma com muyta graça; tem o menino em a mão direita hum passarinho. Não se lembram os Freguezes daquele lugar de Palla, que a Senhora fosse encarnada em nenhum tempo; mas antes affirmão todos se conserva nella a primeira encarnação, com que se manifestou. Mas quem se atreveria a tocalla, tendo-se por indubitável, que esta sagrada Imagem he Angelical, & formada pelas mãos dos Anjos, que a fabricarião por mandado da mesma Senhora, & a collocarião naquele castanheyro, para daquele lugar repartir frutos, & consolaçoens a todos.
Tem-se observado, que não há vento, nem ar, nem pó, que pudesse diminuir a fermosura das cores da sua pintura, & estofado; porque se vê tão viva, e fresca, como se se acabasse de pouco tempo.
Os milagres, os prodígios, & as maravilhas , que obra, & tem obrado esta poderosa Senhora, não seria fácil numerallos; porque só dá vista aos cegos, falla aos mudos, & aos surdos desempede os orgaons do ouvir; mas aos mancos, & aleyjados lhes dá tão perfeita saúde em seus membros, que da Casa da Senhora sahem apregoando os seus poderes, & saltando de alegria, por se verem sem o impedimento, que os embaraça, deyxando penduradas as moletas na Casa da Senhora  em testemunho do beneficio que receberão. São muitos também aquelles, a quem a Senhora dá vida, como o publicão  as muytas mortalhas, &  aonde se vem pender outros muytos sinaes, & memorias de cera em todas as paredes daquele Santuario, os quais como troféos das vitorias, que a Senhora alcançou, nos dizem a todos o quanto he poderosa a nosso favor. O devoto que nos fez esta notícia  confessa de si, que estando à morte, & já destituído de todos os alentos da vida, sem que lhe aproveytassem os remedios da medicina; mas tanto que recorreo à poderosa Senhora de Chão de Calvos, que he a medicina do mundo, como diz São Boaventura: Medicina mundi; logo no mesmo instante recuperou a vida.
Junto à Casa da Senhora está huma fonte, que querem com muyta razão, que seja fonte sua; porque he tão grande a fé com que se valem da sua agua, que sendo a das mais fontes veneno para as febres, esta se converte em cordial tão eficaz, que as desterra. Muytos são os milagres, que se achão escritos, dos que esta Senhora tem obrado, & outros se vem à vista em quadros, aonde se declarão as pessoas a quem a Senhora os fez; & porque isto não fique só em generalidades, referirey os de alguns quadros. E seja o primeyro.
Maria, filha de Manoel Simoens da Villa de Agueda, em o anno de 1669, estava á morte, sem que os remedios aplicados por diligentes, & peritos Medicos lhe pudessem ser de alguma utilidade. Nesta desesperação das medicinas humanas, recorreo aos poderes de Maria Santissima; porque ella he o eficaz medicamento das nossas dores, & enfermidades, & o alivio das nossas moléstias, como a saúda S. João Damasceno: Ave unicum molestiarum levamen, Ave omnium cordium medicamentum; & saúde firme, & perfeyta, como diz Santo Epifanio: Salus firma. A Senhora lhe deu repentina saúde, & em memoria da mercê, que recebeo, lhe dedicou hum quadro, que se vê pendente na sua Igreja.
O mesmo Manoel Simoens ( & seja o segundo) da Villa de Agueda, estava gravissimamente enfermo; porque depois de padecer quatro enfermidades todas perigosas, estando em cada huma dellas desconfiado, & desamparado da medicina, pela pouca esperança que já fazião os Medicos da sua vida, na ultima o deixarão já por morto. De todas o livrou a Senhora de Chão de Calvos, logo que a invocou, & convalescendo brevemente lhe dedicou outro quadro, aonde se refere o favor, que da Senhora recebeo.
Seja o terceyro, & ultimo, o milagre que a Senhora fez no anno de 1698, em hum moço chamado Agostinho, filho de João Lopes do Cardal, que estava quebrado de ambas as verilhas; via-se este moço todos os dias às portas da morte; nesta sua grande moléstia recorreo à Senhora do Chão de Calvos, invocando-a em seu favor: não pode a piedosa Mãy dos pecadores deyxar de se compadecer logo delle, dando-lhe perfeyta saúde. Desta Senhora dizia Santo Ignacio Martyr em sua Epistola, que sempre se condohia, afligindo-se com os miseráveis, & afflictos, socorrendo-os com toda a pressa: Maria miseris,& afflictis condolebat, coafflicta nec segniter subveniebat. Bem o experimentou assim este moço, & em sinal de agradecimento lhe dedicou outro quadro.
No primeyro Sabbado da Quaresma, & no Sabbado de Lazaro, & na segunda Oytava da Paschoa (de que já fallamos) são obrigadas a visitar a Rainha dos Anjos nove Freguesias , que contem em si aquelle Concelho de Mortagua. As quaes vão com os seus Parochos, & com as suas cruzes levantadas; & os Parochos tomão na Casa da Senhora conta dos que faltão, e a estes condenão gravemente. Fazem-se estas procissoens por voto, que fizerão à Senhora em acção de graças, por particulares benefícios que della receberão; & se ouvessemos de referir as maravilhas deste Santuario, fora nunca acabar. Seja ella muyto bendita, pois com tanta piedade se compadece dos miseráveis pecadores.”

1  SANTOS, José de Andrade Assis e : Os Franceses em Mortágua: 23-30 de Setembro de 1810. Revista “Beira Alta”. Viseu.3:3 (1944) pg.261-271

2SANTA MARIA Fr. Agostinho de:  “ Santuario Mariano e Historia das Imagens milagrosas  de Nossa Senhora, e das milagrosamente apparecidas, que se venerão em o Arcebispado Primás de Braga, & nos Bispados seus suffraganeos” Tomo Quarto; Officina de António Pedrozo Galram, Lisboa, 1712.  (Pág. 582 – 589)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016


Voltando à questão da Irmânia
e da Escola Livre da Irmânia

Tenho defendido, isolado, que a denominação de região da Irmânia foi uma criação do Dr. Basílio Lopes Pereira, provavelmente posterior a 1920, mas com toda a certeza posterior a 1915. Em 1915 saiu o último número do jornal “Sol Nascente”, pertencente a Basílio Lopes Pereira, e em nenhuma das suas edições é referida a região, ou a vila da Irmânia.

Como já referi, a primeira vez que surgiu a palavra “Irmânia” foi no título de uma novela de  Ângelo Jorge, publicada em 1912, e a primeira vez que aparece associada à Marmeleira é no registo de casamento de Basílio Lopes Pereira em 1921. A segunda vez ocorreu em 1922, no registo de nascimento do filho do Dr. Basílio, que  foi presenteado com o nome “Dom César Máximo Fernão da Irmânia de Melo Soares de Albergaria de Figueiredo Lobo e Silva e Souza Pacheco de Moscoso e Araújo Lopes
Pereira ”, o que até valeu ao Dr. Basílio um artigo satírico publicado pelo jornalista e historiador Rocha Martins, no jornal “Fantoches ” de 5 de Maio de 1923.

Alguns “historiadores” pouco escrupulosos têm referido a Irmânia, como uma região natural histórica, sem que apresentem qualquer prova disso, valendo-se do seu estatuto académico: “Magister dixit”.

Outros, tem mesmo sonegado ao conhecimento público documentos em que se percebe, com alguma clareza, que toda a tramoia foi criada pelo Dr. Basílio.

Para sustentar o que digo, transcrevo uma passagem de um livro de Manuel Francisco Rodrigues, colega de prisão do Dr. Basílio, intitulado “TARRAFAL, O diário da B5” , publicado pela Brasília Editora, do Porto:

 “ O advogado Basílio Lopes Pereira, o santo fundador da Irmânia, o poeta da Democracia, já se moveu trinta vezes, em contraste com o imobilismo do Reboredo…”

Quanto à questão da data de criação da Escola Livre da Irmânia, tive oportunidade de ler um artigo assinado por Aquiles, datado de 1 de Janeiro de 1961, e publicado no jornal “Defesa da Beira” de 15 de Janeiro de 1961, que informa quem quiser saber:

“Pela Irmânia

Foi a 6 de Janeiro de há umas quatro dezenas de anos, aproximadamente, fundada na Marmeleira, a Escola Livre da Irmânia.
Prestimosa e interessante instituição de educação e cultura popular a cuja acção educadora Marmeleira bastante ficou devendo.”…..

Se alguma dúvida  restasse, o Sr. Aquiles da Silva Neves, um defensor entusiasta da Escola Livre da Irmânia, esclarece-nos que  ela não foi criada em 1908, como alguns “entendidos” afirmam.

 

terça-feira, 15 de novembro de 2016


 A história enviesada pelo preconceito,

ou as leituras pouco cuidadas…

 Nas pesquisas que vou fazendo na Internet sobre os assuntos referentes a Mortágua, só muito recentemente dei conta da existência de um blog com o título  “A bem da Nação”, http://abemdanacao.blogs.sapo.pt,  que nos recorda um formalismo muito do agrado do Estado Novo .

O blog pertence a Henrique Salles da Fonseca, neto do nosso conterrâneo Tomás da Fonseca. Na edição de 27 de Maio de 2009 apresenta uma publicação  subordinada ao título “ Heróis de Cá -8 ; TOMÁS DA FONSECA - IV” em que faz afirmações deveras surpreendentes, que nos levam a pensar que o senhor Henrique não leu os livros do seu avô.

Vejamos: Afirma Em 1910 foi chefe de gabinete do primeiro Presidente do Ministério republicano, Dr. Teófilo Braga e em 1916 foi eleito Senador pelo Distrito de Viseu. ….”

 Se tivesse lido o livro «Memórias dum Chefe de Gabinete», Lisboa 1949, de TOMÁS DA FONSECA, encontraria na  página XXII, no prefácio escrito por Lopes de Oliveira:
O Doutor António Luiz Gomes, como Ministro do Fomento, escolheu para o seu Gabinete um só homem- Tomás da Fonseca. Não teve outro auxiliar.”

Mais adiante, a páginas 35 e 36, Tomás da Fonseca recorda:
“ O Dr. Luís Gomes rebateu rapidamente os meus escrúpulos, passando logo a traçar o seu programa de governo, que terminou com estas palavras, ditas com a firmeza e precisão que punha em tudo, mormente na defesa dos princípios que, desde largos anos, lhe ocupavam o espírito e norteavam a vida:

- Auxiliar e louvar tudo o que tenda a fazer progredir a Nação; atender todas as reclamações justas, mas repelir, implacavelmente, tudo o que vá de encontro à moral e aos interesses nacionais. Bem sei que  vamos tomar conta de um lugar de comando da maior responsabilidade. Nele encontraremos numerosos problemas a que é necessário dar solução imediata. Para lá vamos. E, ou cumpriremos o programa que acabo de traçar-lhe, ou deixaremos tudo, voltando com o mesmo nome honrado e limpo. Garante-o o passado de nós ambos.
Dei-lhe a minha inteira concordância e apertámos a mão, selando assim um contrato que havia de cumprir-se integralmente.

- Nesse caso, até amanhã, no Ministério, às 8 horas. “

Fica claro que Tomás da Fonseca não foi chefe de gabinete de Teófilo Braga, mas de António Luís Gomes, Ministro do Fomento.

A afirmação de que Tomás da Fonseca foi eleito para o Senado em 1916, também é incorreta. De facto esteve presente a primeira vez numa sessão do Senado em 25-06-1915, como se pode ver no Diário do Senado. A sua última presença foi em 23-08-1817.
Em 1911 já Tomás da Fonseca pertencera à Assembleia Nacional Constituinte, com participação nas sessões entre 15-06 -1911  e 25-08-1911, conforme consta do Diário da Assembleia Nacional Constituinte.

Entre  26-08-1911  e 29-05-1915 fez parte da Câmara dos Deputados, na sua primeira legislatura.

 Mais adiante, Henrique Salles da Fonseca afirma:
“Em 1918, por se opor à ditadura de Sidónio Pais, foi preso durante dois meses na cadeia civil de Coimbra em simultâneo com o seu cunhado José Lopes de Oliveira, período em que se dedicou a ensinar as primeiras letras aos presos de delito comum analfabetos seus companheiros de cela.”

 Mais uma vez sou levado a supor que não leu o livro de TOMÁS DA FONSECA: Memórias do Cárcere (Subsídios para a Historia Contemporanea), Coimbra 1919

Se o tivesse lido, saberia que o avô foi preso a 3 de Novembro de 1918 e libertado no dia 29 de Novembro de 1918, o que não chega a um mês.

Saberia também que José Lopes de Oliveira, não foi preso nessa altura, e os companheiros de cela eram mortaguenses não analfabetos.

Entre as páginas 16 e 21, Tomás da Fonseca apresenta os seus companheiros:
“Vejamos agora as circunstâncias em que o facto se deu. Para isso basta apresentar, um por um, os meus companheiros de cárcere.

Antonio José Gonçalves. Este republicano antigo e proprietário da mais concorrida farmácia do concelho. …

Alfredo Sousa…. A sua inteligência, auxiliada por uma vasta cultura mental, adquirida em vários países (esteve 5 anos em Paris, tirando um curso) fez dele nesta crise terrível, o médico assistente e o enfermeiro de quasi todos os doentes da sua freguesia, sem exclusão dos inimigos. 

Outra vítima: o professor da Marmeleira, José Nunes Cordeiro

Outro criminoso: Antonio Baptista. O que fez ele? A vileza de ter sido sempre um funcionário zeloso e cumpridor, administrando com rara solicitude ,o celeiro municipal.  ….

Criminoso numero 5: Antonio Barbosa…Operário decorador, foi sempre um republicano dedicado. …

É verdade que também cá temos os irmãos dr. Basílio e Serafim Lopes Pereira…

O oitavo e ultimo criminoso é o autor destas linhas. Pela primeira vez foi preso e pela primeira vez, também, entrou numa cadeia. E contudo, no tempo da monarquia, e por mais que uma vez, arriscou gestos audaciosos, pronunciou falas contundentes, realisou coisas atrevidas, redigiu artigos artigos incendiários e escreveu livros que demoliram e confundiram e irritaram. Pois nunca o prenderam nem vexaram…”

Na mesma ocasião foram presos  três cidadãos de Santa Comba Dão:

“César Anjo, professor oficial

Aníbal de Brito, sub-chefe fiscal de impostos

e Casimiro Neves, chefe de secretaria da Camara”, com quem os prisioneiros de Mortágua tomaram posições conjuntas.

 Na realidade, Tomás da Fonseca não chegou a dar aulas a ninguém.  No dia 15 de Novembro, os professores aprisionados dirigiram ao Director  da Penitenciária o seguinte documento, que consta na página 73:

“Ex.mo Sr. Director da Penitenciária de   Coimbra

        Os abaixo assinados, José Nunes Cordeiro e César Anjo de Deus, professores primários oficiais, e José Tomaz da Fonseca, professor de ensino normal e ex-director da Escola Normal de Lisboa, tendo verificado que existe nesta Penitenciária uma escola primária para ensino dos presos, escola que, dizem-lhes, não funciona por falta de pessoal docente, vem por este meio pôr à disposição de V. Ex.a e dos presos analfabetos os seus serviços profissionais, sem quebra do regímen a que estão sujeitos, como prisioneiros políticos.

        Coimbra, 15-11-918

                                                   Saude e Fraternidade

                              Os professores (seguem-se as assinaturas)”

 
E na página 74, Tomás da Fonseca comenta:

“ Não sabemos se este ofício, aliás cortez, chegou ou não ao seu destino. Nós é que nunca dele conseguimos resposta.”

 Nas páginas 31 e 32 relata:

“ Dia 6
Às 7 da manhã, sou despertado por um guarda , que me anuncia estar alguém chamando por mim, ao telefone. Salto da cama, num pulo, visto-me num minuto e desço as escadas a galope. Pressinto coisa má.

Minha mulher piorou ,de certo. É alguém que chegou de Mortágua e quer falar-me. Pego no auscultador com o coração aos pulos.

- Quem é ?

- Lopes de Oliveira.

-Minha mulher?

- Não é coisa grave… É certo que não está bem…O dr. Augusto tem ido sempre…Ontem esteve lá o dr. Bernardo Pais….Vim por causa de um soro que um deles receitou…Já procurei vários médicos e as opiniões divergem…”

 Na  página 167:

“ Dia 27

O Lopes d’Oliveira voltou hoje a visitar-nos, sendo logo cercado e abraçado e beijado pelos reconhecidos prisioneiros. Findos os cumprimentos, dele ouvimos tudo o que nosso respeito se há passado: as suas altivas entrevistas com o Tamagnini, os seus telegramas insistindo com o administrador de Mortágua para que oficie, dando os esclarecimentos que superiormente lhe pedem, acerca do complot arquitectado pelo ódio dos monárquicos e dos padres; as saudações que enviou em nosso nome , aos ministros da França e da Inglaterra; a resposta que deram; etc. etc……”

Na página177:
“ Dia 28

O Lopes d’Oliveira, que há 5 dias veio instalar-se num hotel, continua a visitar-nos. Hoje vinha sorridente, distribuindo esperanças a todo o mundo. Que finalmente, íamos sair. Era uma questão de um dia ou dois. Tinham-lh’o garantido e jurado.”

Ainda na página 178:
“… Ao que o Lopes d’Oliveira respondeu, repetindo  a frase da véspera:

- Pois se vos não soltarem amanhã, hão de me prender a mim , nesse mesmo dia.

E saiu para a rua…”

 Terminando na página 185:

“ (29 de Novembro de 1918)

Pampilhosa, 11 da noite

Finalmente: os presos de Mortágua estão em liberdade, graças aos esforços do Lopes d’Oliveira que soube, com altivez e com nobreza, concluir essa difícil operação política.”

 
Para terminar, Henrique Salles da Fonseca manifesta-se muito indignado com o facto do Partido Comunista Português ter referido no Jornal “Avante”, Tomás da Fonseca como seu militante:

 “Associá-lo a qualquer regime totalitário como o PCP tentou, é denegri-lo, apanhá-lo à traição, não respeitar os seus ideais de liberdade absoluta, democracia pluralista, cultura crítica e anti-dogmática.”

 Transcrevemos, na íntegra, a  notícia  publicada no Avante,VI(389) Março de 1968, p.2 :

“ A morte de Tomás da Fonseca, com 90 anos de idade, em 12 de Fevereiro do corrente ano, não representa apenas uma perda para a cultura nacional, para a vida intelectual portuguesa.
Representa, igualmente, uma lacuna nas fileiras do Partido Comunista Português a que ele aderiu quando contava 70 anos (1947).

Preso várias vezes, manteve diante dos esbirros salazaristas a atitude de coragem e desassombro que foi uma das características da sua vida.
Foi a enterrar em Mortágua, onde decorreu uma grande parte da sua vida, entre filas do povo que amou.

À sua família e em particular à sua sobrinha, a corajosa militante comunista Fernanda Tomás, o Avante! envia as suas sentidas condolências.”

De tudo o que lemos de Tomás da Fonseca não nos parece que fosse um homem ideologicamente enquadrável na filosofia do PCP, mas a verdade é que nessa época eram poucas as alternativas a quem quisesse lutar organizadamente contra o regime, e esse era um objectivo que Tomás da Fonseca nunca perderia de vista.
Por outro lado, não tenho conhecimento que o PCP alguma vez tenha reivindicado como seus militantes, quaisquer figuras públicas que o não tenham sido. Porque haveria de fazer uma excepção logo no caso de Tomás da Fonseca? Seria assim tão importante para o PCP? Sinceramente, não acreditamos.

Outro dado significativo é a carta que José Augusto Paiva Tomás, sobrinho de Tomás da Fonseca, escreveu em resposta ao Dr. Alberto Vilaça, advogado em Coimbra, em 5/2/2002, que a publicou no seu livro RESISTÊNCIAS CULTURAIS E POLÍTICAS NOS PRIMÓRDIOS DO SALAZARISMO, Realidades coimbrãs e outras; Campo das Letras, Porto 2003 :
Realmente o meu tio José Tomás da Fonseca pertenceu ao PCP mais ou menos de 1945/46 até morrer. Era através de mim que eram feitos os contactos em sua casa, em Mortágua.”

Alberto Vilaça faz um reparo:
Na verdade estes contactos ter-se-iam realizado até cerca de três anos antes de Tomás da Fonseca falecer, uma vez que por motivo de doença foi viver para Lisboa, onde se encontrava o seu filho.”

Pessoalmente não tive oportunidade de conviver com Tomás da Fonseca, mas conheci muito bem o Sr. José Augusto Paiva Tomás, que era um homem honesto e cordato, e que, em caso algum, afirmaria uma coisa desta importância, se ela não fosse verdadeira.
Não sei se Tomás da Fonseca estava em sintonia perfeita com o PCP, mas não tenho dúvidas que foi seu militante, o que nessa altura era só para pessoas corajosas e firmemente decididas a combater o salazarismo.

Termino com palavras de Salles da Fonseca, publicadas na edição de 26/10/2014 do blog” A bem da nação”:

  Não há dúvida de que as ocorrências nem sempre são efectivamente alvo de descrições objectivas e que «quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto» mas seria intolerável que pactuássemos com quem deturpa a matéria factual pois uma coisa é a interpretação, outra o desvirtuamento da realidade. Nada justifica o esbatimento das linhas de demarcação entre o facto, a opinião e a interpretação.”

 Finalmente vejo-me obrigado a concordar com alguma coisa do que afirma.